Radiografia de Tórax em PA e Perfil: guia prático de posicionamento
Eliwelton Machado Silva, CRTR 02584T · 12ª Região · 29/09/2026
Introdução
A rotina de tórax, com as incidências PA e perfil, está entre os exames mais realizados na radiologia convencional. Erros como rotação, inspiração insuficiente ou centralização incorreta podem simular ou esconder alterações e exigir repetição, aumentando a exposição do paciente.
Este guia sobre raio X do tórax, baseado no Manual Prático de Técnicas e Posicionamento Radiográfico de Bontrager e Lampignano (10ª edição), é voltado a estudantes e recém-formados e aborda pacientes adultos.
O que significa tórax em PA e perfil
Na incidência PA, o feixe atravessa o paciente de posterior para anterior, com a parte anterior do tórax próxima ao receptor de imagem. No perfil, o feixe atravessa o tórax lateralmente; em geral, posiciona-se o lado esquerdo junto ao receptor para reduzir a ampliação da silhueta cardíaca.
1. Preparo do paciente
- Peça que retire da cintura para cima roupas com botões ou partes metálicas, colares, sutiã com aro e qualquer outro objeto radiopaco.
- Peça que prenda cabelos longos ou tranças que possam se sobrepor aos ápices.
- Explique o comando respiratório antes de posicionar. O paciente que entende o procedimento colabora mais e se movimenta menos.
- Confirme a identificação do paciente e a solicitação médica.
- Em mulheres em idade reprodutiva, siga o protocolo da instituição para investigar gestação.
2. Proteção radiológica
- Colimação e centralização corretas estão entre as medidas mais eficazes ao alcance do técnico. Elas reduzem a área irradiada e a radiação espalhada.
- Blindagem: a 10ª edição do Bontrager descreve o uso de protetor plumbífero da crista ilíaca até a metade da coxa. A AAPM PP 32-A recomenda não usar rotineiramente blindagem gonadal e fetal, pois ela pode ocultar anatomia, interferir no controle automático de exposição e, em algumas situações, aumentar a dose. No Brasil, siga o programa de proteção radiológica e o protocolo aprovado pelo serviço, sob responsabilidade técnica, observando a RDC ANVISA nº 611/2022.
- ALARA no sistema digital: selecione kVp e mAs de acordo com o protocolo validado do equipamento e confira o indicador de exposição após cada exposição.
- Grade: no tórax adulto com técnica de alto kVp, o uso de grade é comum para controlar a radiação espalhada. A indicação deve seguir a espessura do paciente, o receptor, o equipamento e o protocolo do serviço; 100 kVp não deve ser tratado como limite universal.
3. Parâmetros técnicos de referência
Os valores abaixo são referências da literatura e devem ser adaptados ao equipamento, ao receptor e ao protocolo validado do serviço.
PA
- Receptor de imagem: 35 × 43 cm, vertical ou horizontal conforme o biotipo.
- Grade: sim, conforme protocolo e equipamento.
- Distância foco-receptor: aproximadamente 180 cm.
- Faixa de kVp: 110 a 125 kVp.
- Controle automático de exposição: geralmente as duas células superiores.
- Respiração: exposição ao final da segunda inspiração profunda.
Perfil
- Receptor de imagem: 35 × 43 cm, vertical.
- Grade: sim, conforme protocolo e equipamento.
- Distância foco-receptor: aproximadamente 180 cm.
- Faixa de kVp: 110 a 125 kVp.
- Controle automático de exposição: geralmente a célula central.
- Respiração: exposição ao final da segunda inspiração profunda.
A distância foco-receptor de aproximadamente 180 cm reduz a ampliação da silhueta cardíaca, o que favorece a avaliação do tamanho do coração.
Os fatores de exposição em mAs não são universais. Devem ser definidos a partir do protocolo validado para o equipamento, receptor, uso de grade, biotipo e sistema de controle de exposição.
4. Incidência PA — posicionamento
- Posicione o paciente em pé, de frente para o receptor, com o queixo elevado e apoiado no bucky.
- Coloque as mãos nos quadris, com as palmas voltadas para fora.
- Faça a rotação anterior dos ombros para retirar as escápulas dos campos pulmonares. Uma opção é pedir que o paciente abrace o bucky.
- Abaixe os ombros para evitar a sobreposição das clavículas aos ápices.
- Mantenha o plano médio-coronal paralelo ao receptor, sem rotação, e centralize o tórax lateralmente.
PA — raio central e colimação
- Direcione o raio central perpendicular ao receptor, em T7, aproximadamente 18 a 20 cm abaixo de C7. O ângulo inferior da escápula pode servir como referência complementar.
- Colime com a borda superior na altura de C7, as bordas laterais nas margens da pele e a borda inferior abaixo dos ângulos costofrênicos.
5. Incidência perfil — posicionamento
- Posicione preferencialmente o lado esquerdo junto ao receptor para reduzir a ampliação cardíaca. Utilize o perfil direito quando houver indicação clínica ou protocolo específico.
- Eleve e cruze os braços acima da cabeça, mantendo o queixo elevado.
- Garanta um perfil verdadeiro, com o plano médio-sagital paralelo ao receptor.
- Evite que o paciente apoie os quadris no suporte, pois isso pode inclinar o tórax.
- Distribua o espaço de forma adequada à frente do esterno e atrás das costelas.
Perfil — raio central e colimação
- Direcione o raio central perpendicular ao receptor, em T7, cerca de 2,5 cm abaixo do nível utilizado no PA.
- Inclua dos ápices aos ângulos costofrênicos posteriores e do esterno às costelas posteriores.
Paciente em cadeira de rodas ou maca
Mantenha o paciente sentado e tão ereto quanto possível, com apoio radiotransparente quando necessário. Adapte o posicionamento, a centralização e a projeção às limitações clínicas, seguindo o protocolo do serviço e evitando rotações.
6. Adaptações por biotipo
Biotipo pequeno
- PA: receptor vertical e colimação ajustada à anatomia.
- Perfil: colimação ajustada nos sentidos anterior e posterior.
Biotipo médio
- PA: receptor vertical e referências padrão.
- Perfil: referências padrão, conferindo a inclusão de toda a anatomia.
Biotipo grande
- PA: considere o receptor horizontal quando necessário para incluir um tórax largo.
- Perfil: confira a inclusão do esterno e das costelas posteriores e evite inclinar o tórax.
7. Critérios de avaliação
PA
- Anatomia: ápices pulmonares e ângulos costofrênicos incluídos.
- Inspiração: pelo menos dez costelas posteriores visíveis acima do diafragma, quando as condições clínicas permitirem.
- Rotação: extremidades mediais das clavículas aproximadamente equidistantes da coluna.
- Exposição: visualização das vértebras torácicas através da sombra cardíaca, sem perda das marcas vasculares pulmonares.
Perfil
- Anatomia: ápices e ângulos costofrênicos incluídos, do esterno às costelas posteriores.
- Inspiração: diafragma baixo e contornos nítidos.
- Rotação: costelas posteriores próximas da sobreposição, conforme o critério de qualidade adotado pelo serviço.
- Exposição: costelas e trama pulmonar visíveis através da sombra cardíaca.
8. Erros comuns e como corrigir
- Rotação nas duas incidências: alinhe corretamente os planos de referência com o receptor.
- Inspiração insuficiente: treine o comando respiratório e exponha ao final da segunda inspiração profunda, quando a condição clínica permitir.
- Escápulas sobre os pulmões no PA: aumente a rotação anterior dos ombros.
- Braços sobre os ápices no perfil: eleve e posicione os braços sem sobreposição.
- Inclinação no perfil: reposicione o paciente e evite o apoio inadequado dos quadris no suporte.
- Ângulos costofrênicos cortados: revise a centralização, a altura, a colimação e a orientação do receptor antes de repetir.
- Movimento: dê instruções claras e utilize o menor tempo de exposição compatível com a técnica validada.
Considerações finais
Os parâmetros deste guia são referências da literatura. Eles não substituem o protocolo do serviço nem a avaliação do profissional habilitado, do responsável técnico ou do físico médico. Cada equipamento tem características próprias de fabricação, calibração, receptor e processamento.
Referências
- BONTRAGER, K. L.; LAMPIGNANO, J. P. Manual Prático de Técnicas e Posicionamento Radiográfico. 10ª ed., p. 2–8.
- AAPM. Position Statement on the Use of Patient Gonadal and Fetal Shielding, PP 32-A, 2019. https://www.aapm.org/org/policies/details.asp?id=468
- BRASIL. ANVISA. Resolução RDC nº 611, de 9 de março de 2022. https://www.in.gov.br/en/web/dou/-/resolucao-rdc-n-611-de-9-de-marco-de-2022-386107075